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FAHRENHEIT 11 DE
SETEMBRO
MICHAEL MOORE
ELENCO
“Em nome de meu elenco estelar – GW, Dick, Rummy, Condi e Wolfie –
agradeço a um incrível número de pessoas de boa vontade que
levaram Fahrenheit 11 de Setembro ao público”.
Michael Moore
MICHAEL MOORE -
Direção / Roteiro
/ Produção
Michael Moore é premiado diretor de Roger & Eu (Roger & Me) de
1989, a história de sua inexorável tentativa de confronto com o
Presidente da General Motors, Roger Smith, sobre os efeitos
devastadores do enxugamento (donwsizing) da GM na cidade de Flint,
Michigan. Roger & Eu apareceu em mais de cem listas como “Um dos
Dez Melhores Filmes do Ano”, ganhou o prêmio de Melhor
Documentário da Associação dos Críticos de Cinema de New York e
prêmios de outras associações de críticos por toda a América.
Moore empregou o lucro do filme para fundar o Centro de Mídia
Alternativa, uma fundação que, desde de sua criação, desembolsou
mais de meio milhão de dólares em subvenção para cineastas
independentes e grupos de ação social.
Moore nasceu e foi criado em Flint, onde aos 18 anos, concorreu
para o conselho de diretores da escola e ganhou, tornando-se um
dos mais jovens no país a ser eleito para o cargo público. Aos 22
anos, fundou a The Flint Voice (A Voz de Flint), uma dos mais
respeitados jornais alternativos do país por 10 anos. Em meados de
1990, Moore foi produtor, diretor, roteirista e apresentador da
premiada série de TV Nation, que foi exibida pela NBC e depois
pela Fox.
Moore, também, escreveu e dirigiu uma comédia Canadian Bacon (que
participou da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes de
1995). Seu segundo e premiado documentário foi The Big One, que
revelava a cobiça e o mau procedimento nos grandes negócios por
toda a América, forçando a Nike a acabar com o uso do trabalho
infantil na Indonésia. Como escritor, Moore escreveu alguns
best-sellers, incluindo Downsize This! Random Threats from na
Unarmed American, que escreveu com sua mulher Kathleen Glynn.
Em 1999 e 2000, Moore produziu duas temporadas da série indicada
para o Emmy, The Awful Truth, para a Bravo (EUA e Canadá) e
Channel 4 (Inglaterra). O L.A. Times considerou a série como “a
mais inteligente, divertida sátira política.”
Michael Moore dirigiu, também, clipes musicais para o REM E Rage
Against the Machine, e apareceu várias vezes em Politically
Incorrect, The Late Show with David Letternam e Late Night with
Conan O’Brien.
O último livro de Moore sobre humor político leva o título Stupid
White Men – Uma Nação de Idiotas (Stupid White Men and Other Sorry
Excuses for the State of the Nation), foi o primeiro da lista de
best-sellers do The New York Times durante nove semanas
consecutivas na época de seu lançamento. O livro também foi muito
bem recebido no Canadá e na Inglaterra e já está em sua 19o.
edição.
Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas permaneceu no ranking da
veja por 47 semanas
No Brasil os livros de Michael Moore, Stupid White Men – Uma Nação
de Idiotase e Cara Cadê Meu País?,que esteve na lista da revista
Veja por 14 semanas consecutivas, desde o seu lançamento em 1º de
abril. Os dois livros foram publicados no Brasil pela W11
Editores.
Em 2002 Moore diigiu, produziu e roteirizou Tiros em Columbine que
lhe valeu o Oscar de Melhor Documentário de longa-metragem. Na
cerimônia de entrega do prêmio ele fez um inflamado discurso
contra o Presidente Bush. Seria o embrião de Fahrenheit 11 de
Setembro. Tiros em Columbine ganhou vários prêmios internacionais
teve bilheteria de mais de US$ 21 milhões apenas nos Estados
Unidos. No Brasil o filme foi lançado pela Alpha Filmes (com
distribuição nos cinemas da Europa Filmes & M.A. Marcondes e foi
visto por mais de 206 mil espectadores.
O cineasta - que mede 1.87 m. - é casado com Kathleen Glynn,
produtora de Tiros em Columbine e Fahrenreit 11 de Setembro. O
casal tem 1 filho.
Os filmes prediletos do cineasta são Morangos Silvestres (1957),
de Ingmar Bergman e Táxi Driver – Motorista de Táxi (1976), de
Martin Scorsese.
Michael Moore promoveu bingos beneficentes com seus vizinhos para
arrecadar dinheiro e produzir seu documentário Roger e Eu.
Descendente de irlandeses, o diretor vive em Nova York e tem um
Volkswagem Beetle.
KATHLEEN GLYNN – Produtora
Kathleen Glynn, produtora premiada com um Emmy em 1995 por TV
Nation. Ela já trabalhou com Moore em seus quatro filmes e duas
séries de TV. Começando com Roger e Eu (Roger & Me), Glynn também
produziu Canadian Bacon, The Big One e Tiros em Columbine.
Além destes, Glynn produziu, também o premiado The Awful Truth,
para a televisão. Kathleen Glynn está a frente da produtora Dog
Eat Dog Filmes.
Ela é mulher do cineasta Michael Moore. Kathleen Glynn nasceu em
Flint, estado de Michigan, também a cidade natal de Moore.
JIM CZARNECKI – Produtor
Jim Czarnecki é amigo e colaborador de Michael Moore há mais de 10
anos, começando pelo premiado TV Nation, passando por The Awful
Truth, Canadian Bacon e The Big One. Antes de trabalhar com Moore,
Czarnecki já havia se estabelecido na comunidade cinematográfica
de Nova York com os filmes Sid & Nancy, versão para cinema de
Sandra Bernhard de Without You I’m Nothing. Ele atuou como
assistente de direção em Pee Wee’s Playhouse, de 1986 até 1990.
Czarnecki, também, produziu Julian donkey-boy; foi produtor
executivo de Love Liza e da Ridley Scott and Associates (RSA),
onde produziu comerciais de TV dirigidos por Martin Scorsese,
Oliver Stone, Spike Lee, Chris Cunningham e Woody Allen.
Ele foi também produtora de Tiros em Columbine.
TIMELINE FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO
23/03/2003
Noite de entrega do 75º Oscar. Michael Moore ganha a estatueta de
melhor documentário por “Tiros em Columbine”. No palco, diretor
fez discurso acusando o presidente George W. Bush de ser “um
presidente fictício e que vivemos em tempos fictícios”. Em
entrevista, dia 22/06/2004, Moore afirmou que “Fahrenheit 11 de
setembro” surgiu como uma resposta àquela noite. “Tive que me
explicar. O discurso teve muito a ver com a realização deste
filme”.
Discurso de Michael Moore, Oscar 2003:
"Convidei meus colegas
documentaristas para estarem comigo aqui no palco em solidariedade, porque
nós todos gostamos de não-ficção, e nós vivemos em um tempo de ficção. Nós
vivemos em um tempo em que resultados fictícios de uma eleição proclamam um
presidente fictício. Vivemos em um tempo em que esse homem nos leva a uma
guerra por razões fictícias, enquanto nos oferece a ficção da fita de
vedação e do alerta laranja. Nós somos contra essa guerra, Sr. Bush. Tome
vergonha, Sr Bush. Tome vergonha na cara. Se o Papa e as Dixie Chicks estão
contra você, é porque você está acabado. Obrigado!"
O vídeo do discurso está disponível no site oficial de Michael Moore
http://www.michaelmoore.com/special/oscar.php
28/03/2003
A Icon, produtora de Mel Gibson, anuncia que irá financiar o novo
projeto de Michael Moore, já entitulado “Fahrenheit 9/11”.
13/05/2003
A Icon Productions desiste de “Fahrenheit 11 de setembro”, a
pedido de seu proprietário, Mel Gibson. Este temia a repercussão
que poderiam surgir com o documentário. Ele próprio, então, era
alvo de críticas pelo então inédito “A Paixão de Cristo”, em
produção à época. A Miramax assumiu o projeto de Moore.
15/05/2003
Surgem os primeiros protestos de organizações conservadoras
norte-americanas contra “Fahrenheit 11 de setembro”. O site GOPUSA
(www.gopusa.com) propõe boicote aos produtos e aos parques
temáticos Disney, por estar envolvida na produção do filme de
Michael Moore . “Vamos pensar duas vezes antes de gastar dinheiro
em algo que possa ser utilizado para apoiar alguém como Michael
Moore”, escreveu Steve Wood, responsável pelo site.
06/05/2004
Em depoimento em seu site oficial, Moore escreveu: “Fui informado
ontem de que a Disney não quer distribuir meu filme, ‘Fahrenheit
11 de setembro’. De acordo com o New York Times, tem a ver com
negócios entre a Disney e uma redução de impostos que eles têm na
Flórida, que é governada pelo irmão do presidente, Jeb Bush”.
08/05/2004
“Fahrenheit 11 de Setembro” anunciado como um dos selecionados
para a competição oficial do Festival de Cannes 2004.
13/05/2004
Os irmãos Weinstein entram em negociações com a Disney para a
recompra dos direitos de distribuição de “Fahrenheit 11 de
setembro”, por US$ 6 milhões de dólares, seu valor de custo e
divulgam nova data para a estréia do filme: 25/06/2004.
18/05/2004
“Fahrenheit 11 de setembro” é exibido em Cannes e é ovacionado. A
platéia ficou entre 15 e 20 minutos aplaudindo de pé.
22/05/2004
O presidente do júri do Festival de Cannes de 2004, Quentin
Tarantino, anuncia o documentário “Fahrenheit 11 de setembro”, de
Michael Moore, como o vencedor da Palma de Ouro em Cannes.
“Fahrenheit 11 de setembro” ganhou também o prêmio FIPRESCI
(Federação Internacional de Críticos de Cinema).
31/05/2004
Os irmãos Weinstein anunciam que fecharam o acordo de recompra com
a Disney e que irão distribuir “Fahrenheit 11 de setembro” por uma
nova companhia, a Fellowship Adventure Group.
02/06/2004
As distribuidoras Lions Gate Filmes e IFC Films assinam parceria
com a recém-criada empresa Fellowship Adventure Group para
distribuição em cinema de “Fahrenheit 11 de setembro”.
08/06/2004
Em avant-première especial, em Beverly Hills, no cinema da
Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood
(A.M.P.A.S.), Michael Moore apresenta “Fahrenheit 11 de setembro”
a celebridades como Leonardo Dicaprio, Drew Barrymore, Rob Reiner,
Danny DeVito, Matthew Perry, Kevin Smith e David Duchovny
12/06/2004
A Motion Pictures Association of America, associação de cinema da
América, anuncia classificação R para “Fahrenheit 11 de setembro”,
o que torna o filme “restrito para pessoas menores de 17 anos
desacompanhadas dos pais”.
14/06/2004
A Fellowship Adventure Group anuncia que irá apelar à decisão da
MPAA, em busca de uma censura PG-13, “desaconselhável para
crianças menores de 13 anos”. “É uma pena que garotos de 15 e 16
anos, que podem ser recrutados para guerras futuras, não possam
ver o filme”, afirmou Michael Moore.
14/06/2004
Em première em Nova York, Moore reúne artistas como Sharon Stone,
Richard Gere, Mike Myers, Tim Robbins, Laurence Fishburne e Glenn
Close para assistirem a “Fahrenheit 11 de setembro”. Leonardo
Dicaprio compareceu e assistiu novamente ao filme.
16/06/2004
As distribuidoras de “Fahrenheit 11 de setembro” recebem o apoio
do ex-governador de Nova York, o democrata Mario Cuomo, que se
propõe a ser o advogado da apelação. “O filme tem algo realmente
interessante para se ver, ou tantas pessoas não estariam tentando
vetá-lo”, afirmou Cuomo em coletiva, informando que já havia
assistido três vezes a “Fahrenheit 11 de setembro”.
23/06/2004
Dois dias antes da estréia de “Fahrenheit 11 de setembro” nos EUA,
a MPAA julgou a apelação das distribuidoras do filme e manteve a
censura R.
23/06/2004
“Fahrenheit 11 de setembro” estréia em Nova York, em dois cinemas,
quebrando recordes e vendendo todos os lugares das salas em que
foi exibido. No multiplex Loew's Village 7, arrecadou US$ 49 mil
dólares em um dia, ultrapassando a marca de US$ 43 mil dólares de
“MIB”. No cinema Lincoln Plaza, o filme fez US$ 30 mil dólares
neste dia.
25/06/2004
No dia de sua estréia, “Fahrenheit 11 de setembro” era cotado pelo
mercado e por sites especializados em previsões de bilheterias
como o provável segundo ou terceiro lugar nas bilheterias. O filme
foi lançado com 868 cópias, e estimavam que “Fahrenheit 11 de
setembro” ficasse em segundo lugar no ranking, abaixo de “White
Chicks”, que estreou com 2.726 cópias.
25/06/2004
No mesmo dia em que “Fahrenheit 11 de setembro” estreou, a FEC
(Federal Election Commission), Comissão Federal Eleitoral dos EUA,
proibiu a transmissão de comerciais via rádio e televisão de
documentários que façam referências a candidatos políticos um mês
antes das votações primárias. Esta ação inibiu campanhas do filme
e seu posterior lançamento em DVD, previsto para outubro. As
eleições presidenciais nos EUA ocorrerão em novembro.
25/06/2004
Imprensa divulga, no mesmo dia da estréia de “Fahrenheit 11 de
setembro”, o primeiro festival “American Film Renaissance”, que
planeja “incentivar cineastas independentes a produção de filmes
que promovam os valores tradicionais americanos”, segundo consta
no site do festival, www.afrfilmfestival.com. O evento está
marcado para 11 de setembro.
28/06/2004
“Fahrenheit 11 de setembro” teve renda de US$ 23.9 milhões na
estréia, ficando em primeiro lugar nas bilheterias. Em um fim de
semana, ultrapassou o público total de “Tiros em Columbine”, filme
anterior de Michael Moore. Único documentário da história a
estrear em tal posição, “Fahrenheit” cresceu em cópias na segunda
semana, para 1.725, chegando ao número de 2.011 cópias em sua
terceira semana de exibição. Com um mês em cartaz, “Fahrenheit 11
de setembro” alcançou a marca de US 93.8 milhões de dólares.
30/06/2004
Um dono de cinema de Oakland, nos EUA, colou cartazes com o
escrito “Não apoiamos a censura R de Fahrenheit” em algumas de
suas salas.
09/07/2004
“Fahrenheit 11 de setembro” estréia na França, em 231 salas. O
filme fez a quinta maior estréia do ano no país, com renda de US$
3.7 milhões de dólares. Na Inglaterra, o filme de Moore, exibido
em 132 salas, fez US$ 2.4 milhões de dólares.
15/07/2004
Produtores do programa do entrevistador Larry King, após
conversarem com a Casa Branca, cancelaram entrevista com Michael
Moore. Eles requisitaram um representante para confrontar o
diretor durante a entrevista ao vivo.
22/07/2004
Estreia na Argentina, em 23 cinemas, e no primeiro fim de semana é
visto por 64.940, uma média 2.823 espctadores por sala. Tiros em
Columbine, lançado com 15 cópias em março de 2003, havia feito no
seu primeiro fim de semana, 8.108 (540 espectadores por cópia).
TEXTO DE MICHAEL MOORE ESCRITO UMA SEMANA APÓS O LANÇAMENTO
DE FAHRENHEIT 11 DE SETEMBRO NOS EUA
Minha Primeira Semana Fantástica com
Fahrenheit 11 de setembro...
Amigos,
Por onde devo começar? Esta semana que passou me deixou abismado.
Fahrenheit 11 de setembro é o filme n° 1 no país, o documentário
de maior faturamento de todos os tempos. Minha cabeça está
girando. Nós não havíamos perdido nosso distribuidor oito semanas
atrás? Karl Rove realmente não conseguiu impedir isto? Bush está
arrumando as malas?
A cada dia desta semana eu recebia uma nova informação da imprensa
que cobre Hollywood, e mal tinha tempo de me recuperar da última
novidade antes da próxima me deixar tonto:
** Mais pessoas viram Fahrenheit 11 de setembro num final de
semana do que todas as pessoas que viram Tiros em Columbine em
nove meses.
** Fahrenheit 11 de setembro bateu o recorde de Rocky III em
termos de estréia de final de semana de maior bilheteria de todos
os tempos em comparação com qualquer filme que tenha estreado em
menos de mil salas de exibição.
** Fahrenheit 11 de setembro superou o final de semana de estréia
de O Retorno de Jedi.
** Fahrenheit 11 de setembro foi instantaneamente para a segunda
posição da lista que traz as maiores médias de exibição por sala
para um filme que estreou com ampla distribuição.
De que forma posso agradecer a todos vocês que foram vê-lo? Esses
recordes são fenomenais. Eles enviaram ondas de impacto direto
para Hollywood – e, o que é mais importante, direto para a Casa
Branca.
Mas a coisa não parou por aí. A reação ao filme entrou, então, num
terreno misterioso. Surfando pelo dial aterrisei na rede Fox que
estava transmitindo a corrida NASCAR ao vivo no domingo passado
para uma audiência de milhões de norte-americanos – e, de repente,
os comentaristas estavam contando que o campeão da NASCAR Dale
Earnhardt Jr. havia levado sua equipe para ver Fahrenheit 11 de
setembro na noite anterior. O locutor esportivo da Fox Chris Myers
contou sobre a crítica de Earnhardt de viva voz direto para as
entranhas da América: “Ele disse, bem, será uma boa experiência
aglutinadora, independente de sua crença política. Como
americanos, é uma coisa boa de ser ver”. Uau! Fãs da NASCAR – não
dá para ir mais fundo do que isso no território de George Bush!
Caminhonetes de mudança da Casa Branca – LIGUEM SEUS MOTORES!
Daí houve Roger Friedman do canal Fox News fazendo uma crítica
absolutamente entusiasmada sobre nosso filme chamando-o de “uma
obra realmente brilhante, e um filme que membros de todos os
partidos políticos deveriam ver sem falta”. Richard Goldstein do
Village Voice conjecturou que Bush já é considerado carta fora do
baralho, de forma que Rupert Murdoch devia começar a bajular a
nova administração. Estou por fora disso, mas nunca ouvi uma
palavra decente a meu respeito vinda da Fox. Assim, depois que me
recuperei, fiquei me perguntando se a próxima surpresa seria
receber um bilhete apaixonado de Sean Hannity.
Sem contar a Lista das Dez Mais de Letterman: ‘“As Dez Principais
Reclamações de George W. Bush Sobre Fahrenheit 11 de setembro:
10. O ator que representou o presidente não era nada convincente
9. O filme simplificou demais a maneira com que roubei a eleição
8. Houve um excesso de palavras sofisticadas
7. Se esperasse alguns meses, Michael Moore poderia ter incluído a
parte em que eu mando deportá-lo
6. Não teve esses macacos hilariantes que fumam cigarros e
levantam o dedo médio para mandar as pessoas se f...
5. De todas as acusações de Michael Moore, apenas 97% são
verdadeiras
4. Não está comprovado – que eu desmaiei porque engasguei com um
pedaço de pipoca
3. Onde diabos se meteu o Homem Aranha?
2. Não pude ouvir a maior parte do filme por causa do desbocado do
Cheney
1. Eu achava que isso era para tratar de um jogo de bola-queimada”
Mas foram as reações e relatos que recebemos das salas de exibição
de todo o país que realmente me deixaram estupefato. Recebi
ligações de um gerente de cinema após o outro dizendo que o filme
estava sendo aplaudido de pé na hora dos créditos finais – em
lugares como Greensboro, Carolina do Norte, e na cidade de
Oklahoma – e que estava sendo difícil esvaziar as salas na
seqüência porque as pessoas ou ficavam aturdidas demais ou queriam
continuar sentadas conversando com os vizinhos de poltrona sobre o
que haviam acabado de ver. Em Trumbull, Connecticut, uma mulher
subiu na poltrona depois do filme e gritou "Vamos fazer uma
reunião!" Um homem de San Francisco tirou o sapato e jogou-o na
tela quando Bush apareceu no final. Grupos de senhoras religiosas
de Tulsa estavam indo assistir ao filme e caíam no choro.
Foi este úItimo grupo que desmentiu todos os sabe-tudo falastrões
que, antes da estréia do filme, declararam que apenas a “galera”
do contra iria ver Fahrenheit 11 de setembro. Eles não podiam
estar mais equivocados. Os cinemas das profundezas do sul e do
meio-oeste bateram recordes locais em comparação com qualquer
outro filme jamais exibido por lá. É, os ingressos também se
esgotaram em Peoria. E em Lubbock, Texas, e em Anchorage, Alasca!
Um jornal após o outro escreveu toneladas de matérias embasbacadas
sobre pessoas que se autodenominavam “independentes” e
“republicanos” saindo do cinema balançadas e em lágrimas,
proclamando que não poderiam, em sã consciência, votar em George
W. Bush. O The New York Times escreveu sobre uma republicana
conservadora de 20 e poucos anos de Pensacola, Flórida, que chorou
durante o filme inteiro e disse ao repórter: “Ele realmente me faz
questionar o que sinto a respeito do presidente... e sobre seus
motivos…”
O Newsday publicou material sobre um auto-descrito “apoiador
ardente de Bush e Cheney” que foi ver o filme em Long Island, e
sua reação discreta no final. Ele disse, "O filme realmente me deu
um tempo para pensar sobre o que realmente está acontecendo. Houve
coisas demais –um excesso de coisas para deduzir". O homem então
comprou mais três ingressos para outras sessões do filme.
O Los Angeles Times descobriu uma mãe que havia “apoiado [Bush]
ferozmente” no cinema em Des Peres, Missouri: “Saindo de
Fahrenheit 11 de setembro de Michael Moore, com os olhos molhados,
Leslie Hanser disse que por fim entendera... ‘Minhas emoções são
só...’ Ela foi embora agitando as mãos para expressar confusão.
‘Sinto como se nós não tivéssemos enxergado toda a verdade
antes.’"
Essas devem ter sido as piores notícias possíveis para a Casa
Branca no início da manhã de segunda-feira. Imagino que eles
ficaram num estupor tamanho que "devolveram" o Iraque dois dias
antes do previsto!
Editores de noticiários nos disseram que estavam sendo
"bombardeados" com e-mails e telefonemas da Casa Branca (leia-se
Karl Rove), tentando se safar desta encrenca com ataques ao filme
e à minha pessoa. Mas o porta-voz Dan Bartlett contou à assessoria
de imprensa da Casa Branca que o filme era "escandalosamente
falso" –embora tenha dito que não assistiu ao filme. Depois ele
contou à CNN que "Este é um filme que não precisa ser assistido
para que saibamos de antemão que é repleto de incorreções
factuais". Pelo menos eles são coerentes. Eles nunca precisaram
ver uma única arma de destruição em massa antes de mandar nossos
jovens para a morte.
Muitos noticiários estavam mais do que ansiosos para embarcar na
versão da Casa Branca. Afinal de contas, trata-se de uma grande
parte do que Fahrenheit enfoca –como a mídia preguiçosa e
complacente acatou todas as mentiras da administração Bush sobre a
necessidade de invadir o Iraque. Eles aceitaram a lenga-lenga
sobre a ajuda apresentada pela Casa Branca e raramente, se é que
isso aconteceu em algum momento, nossa mídia fez as perguntas
duras que devia ter feito antes de a guerra começar.
Como o filme "desmascara" a mídia poderosa por suas falhas e sua
cumplicidade com a administração Bush – quem algum dia irá se
esquecer de sua torcida incessante e constrangedora quando as
tropas partiram para a guerra, como se isso fosse apenas um jogo
–, a mídia não estava propensa a deixar eu me dar bem com algo que
agora parece um fenômeno cultural. Num programa atrás do outro,
caíram em cima de mim com o tipo de atitude viciosa que se
esperava que eles tivessem tido com aqueles que estavam mentindo
sobre a necessidade de se invadir uma nação soberana que não nos
impunha ameaça alguma. Eu não culpo nossos
jornalistas-celebridades bem-pagos –eles parecem um bando de
puxa-sacos dopados em meu filme, e acho que no lugar deles também
ficaria fulo da vida comigo. Afinal de contas, já que os fãs da
NASCAR assistem a Fahrenheit 11 de setembro, será que algum dia
voltarão a acreditar numa só coisa que assistam nos noticiários da
ABC/NBC/CBS?
Por volta da próxima semana, vou relatar minhas aventuras pela
mídia neste mês passado (também incluirei em breve uma seção
completa de FAQ no meu website para que vocês tenham todos os
subsídios e evidências necessários sobre o filme quando se
encontrarem num debate acalorado com seu cunhado conservador!).
Por ora, por favor, fiquem cientes do seguinte: Todo e qualquer
fato que eu exponho em Fahrenheit 11 de setembro é a verdade
absoluta e irrefutável. Este filme talvez seja o documentário mais
meticulosamente pesquisado e checado da atualidade. Nada menos do
que doze pessoas, incluindo três equipes de advogados e os
veneráveis perscrutadores de fatos da New Yorker passaram um pente
fino no filme para que nós pudéssemos lhes dar esta garantia. Não
deixem que qualquer um diga que isso ou aquilo não é verdadeiro.
Quem disser isso está mentindo. Façam essa gente entender que as
OPINIÕES no filme são minhas, e qualquer pessoa por certo tem o
direito de discordar delas. E as questões que coloco no filme, com
base nesses fatos irrefutáveis, também são minhas. E eu tenho
direito de colocá-las. E continuarei cobrando essas coisas até que
sejam esclarecidas.
Para concluir, quero dizer que a reação mais encorajadora ao filme
partiu de nossos soldados e de suas famílias. Cinemas em vilas
militares por todo o país registraram lotações esgotadas. Nossas
tropas conhecem a verdade. Elas a viram em primeira mão. E muitas
delas não conseguiam acreditar que aqui estava um filme
VERDADEIRAMENTE do lado deles – o lado de trazê-los vivos de volta
para casa e nunca mais enviá-los para lugares perigosos a menos
que isso seja absolutamente o último recurso. Por favor, reservem
um momento para ler esta história maravilhosa do jornal diário de
Fayetteville, Carolina do Norte, onde há o Forte Bragg. Fiquei de
coração partido ao ler isto, as reações de famílias militares e os
comentários da mulher de um soldado de infantaria apoiando
publicamente meu filme – o que me levou à resolução de assegurar
que o máximo possível de norte-americanos veja este filme nas
próximas semanas.
Mais uma vez obrigado a todos vocês por seu apoio. Juntos, fizemos
algo que vai entrar nos livros de História. Minhas desculpas a O
Retorno de Jedi. Vamos compensar isso produzindo “O Retorno do
Texano a Crawford” em novembro.
Que a farsa esteja com vocês, mas por breve tempo,
Michael Moore
ENTREVISTA COLETIVA DE MICHAEL MOORE
À IMPRENSA INTERNACIONAL
6 de julho de 2004 - Essex House Hotel, Nova York
ENTREVISTA TRANSCRITA NA ÍNTEGRA
Abertura de Michael Moore
Em primeiro lugar, agradeço por estarem aqui. Pedi para encontrar
cada um de vocês individualmente, mas não deixaram. Não,
brincadeira, acabei de inventar isso. Eu gostaria de ter podido ir
ao país de cada um de vocês para fazer isto, quer dizer, a
propaganda do filme, mas temos aqui uma eleição que está chegando
e acho que simplesmente decidimos que cada dia gasto fora dos EUA
seria um dia longe de nossa missão aqui, de modo que eu espero que
as pessoas compreendam que nossa prioridade tinha de ser nos
concentrarmos no que está acontecendo, para que possamos agir da
melhor maneira possível para tirar o Sr. Bush da Casa Branca.
Agradeço muito a presença de vocês e o modo como faremos isso, e
ficaremos tanto tempo quanto for necessário para eu responder a
todas as perguntas que vocês tiverem. Então... obrigado.
Jan Solomon., Beyond Elite. É uma revista online, então nós
representamos o mundo.
Moore: Uau! Isso é intenso!
Jan Solomon: E eu queria perguntar a você... Nós da Beyond
Elite o consideramos um grande denunciador, e agora que você expôs
as mentiras da administração Bush, assistindo a Fahrenheit 11 de
Setembro, acho que você está dizendo uma coisa muito mais
profunda, e eu queria perguntar-lhe sobre estas exigências e
restrições no seu país, e se você enxerga uma solução para isso. A
administração Bush é, a meu ver, um mero sintoma, e eu acho que
você está apontando para um problema mais profundo que temos em
nosso país.
Moore: Bem, o problema mais profundo que nós temos... e eu
gostaria de dizer que todos os meus filmes têm uma espécie de
finalidade a longo prazo, que eu acho que gostaria que fosse
atingida algum dia. Cada um dos filmes também tem uma missão a
curto prazo. A missão a curto prazo deste filme é tirar George
Bush da Casa Branca. O objetivo a longo prazo continua o mesmo que
sempre foi desde Roger e Eu.
O sistema econômico que temos neste país é um sistema injusto e
antidemocrático e, enquanto isso não mudar, nós teremos e
continuaremos a ter sempre mais desses mesmos problemas que eu
denuncio e persigo em meus filmes. Não quero continuar a fazer
esses filmes na esperança de que possamos fazer pequenos
curativos, pois o que precisamos consertar é o problema maior. Nós
precisamos de um sistema econômico democrático sobre o qual nós, o
povo, tenhamos controle e poder de decisão; as decisões que são
tomadas, as decisões que nos afetam. E me recuso a considerar esta
uma sociedade igualitária enquanto uma elite de 10% da população
controla a maioria da riqueza deste país. Então, é isso que eu
pretendo. Não acho que eu possa ser mais claro do que isso.
(Imitando o sapo Caco, dos Muppets)
Ele começou com um papo comunista. Não sei DO QUE ele estava
falando. Ooh... (rindo) (Voz normal) Os distribuidores americanos
estão ali fazendo “ooohhhhh”... Desculpa. Sim, pode ir chamando
ou... para mim tanto faz.
Roberto Manates, do jornal Reforma, do Mexico:
e eu queria lhe fazer uma pergunta sobre a reação do governo e
sobre os seus críticos. Você recebeu alguma ameaça, houve algum
ataque específico contra a sua pessoa? E, também, você disse que
seu objetivo é tirar o Sr. Bush da Casa Branca. O que mais você
está planejando fazer nos próximos meses antes da eleição?
Obrigado.
Moore: Com relação às ameaças, não sei de nenhuma. Você
sabe de alguma coisa que eu não sei ou... há algo que você não
está me dizendo, ou o quê? Ah, bom, eu também não sei de
nenhuma... Tudo bem. Até o momento, eu pareço estar bem, e isso
que acabei de dizer será uma ótima citação para vocês quando eu
for encontrado boiando no rio semana que vem (risos). (Imitando um
apresentador de noticiário) Apenas na semana, o Sr. Moore, numa
coletiva à imprensa, disse: “Não, que ameaças?” (rindo) (Voz
normal) O que mais eu vou fazer quanto a essa eleição? Nada. Eu
fiz este filme. Eu encorajo as pessoas, e elas estão montando
mesas de registro fora dos cinemas para cadastrar eleitores e
encorajar as pessoas a votar. Vivo num país onde 50% das pessoas
não votam, então realmente espero que essa gente se torne
engajada, e a partir de todas as notícias que temos visto do lado
de fora dos cinemas, muitos não-eleitores estão tomando a decisão
de votar pela primeira vez na vida. Então, eu fico muito contente
de ouvir isso.
Katherine Tulich, do Canal 7, da Austrália:
Obviamente o cerne deste filme é destinado ao público americano,
mas, de uma perspectiva internacional e também, se me permite
perguntar mais especificamente sobre a Austrália, porque nós
fizemos e ainda fazemos parte da Forças da Colizão (Coalition of
the Willing), eu queria saber o que você espera que o público
australiano aprenda com esse filme e, talvez, o que acha de nosso
primeiro-ministro, John Howard: ele foi ludibriado ou é cúmplice?
Moore: Recebo muita correspondência da Austrália. Eu
provavelmente recebo mais correspondência per capita da Austrália
que de qualquer outro país. Há muitos australianos furiosos. Eu
nunca soube o quão furiosos, e não acho que seja só porque vivem
na Austrália. Estou certo, não? Não... quero dizer que eu percebo
que vocês, por assim dizer, vivem numa ilha, mas que também é um
país, mas que também é um continente. Então, sei que há muita
confusão aí. Sabe: somos um país, somos um continente? Ninguém
resolveu isso ainda, então... O que me deixa confuso é o seguinte:
como alguém como John Howard pode se aliar a George W. Bush? Não
quero dar muito crédito ao Sr. Howard, mas ele ao menos parece ter
meio cérebro. Meio, eu disse, meio. E estou sendo generoso, mas o
que ele está fazendo com George W. Bush? É realmente uma desgraça,
e o povo australiano, de acordo com as pesquisas, não aprova isso
de ser parte da Colizão, e eu espero que aconteça a ele a mesma
coisa que aconteceu com o líder da Espanha quando decidiu
juntar-se à Colizão.
Eu vi na TV bem antes de vir aqui: George Bush estava na
Casa Branca hoje agradecendo ao primeiro-ministro da Islândia por
ter se juntado à Colizão. É claro, sem a Islândia, nunca teríamos
ganhado essa guerra. Sabe, eles nos têm apoiado totalmente, e ele
só quis agradecer-lhes por isso. Eu espero que os australianos que
assistirem a este filme digam a si mesmos: “Precisamos de uma
mudança de regime aqui no nosso país.” Com licença, meu telefone
está tocando... Ora, é O PRÓPRIO John Howard. Desculpe... (rindo)
Desculpe por aquilo. Vou desligar isto aqui. Sim. Desculpe por
aquilo.
Maria Ramirez, do jornal El Mundo, da Espanha. Nós não fazemos
mais parte da Colizão.
Moore: AGORA vocês não fazem! (rindo) Colocam-nos NA
confusão e depois simplesmente nos abandonam, certo?
Maria Ramirez: É. De qualquer modo, tenho algumas perguntas
para você. Em primeiro lugar, você tem criticado muito a imprensa
americana, dizendo que ela não fez o trabalho dela, e houve um
artigo na coluna de Paul Crewman (colunista do jornal The New Yorl
Times) que talvez você tenha lido, dizendo que, na verdade, essa
foi a chave do sucesso do seu documentário, pois os americanos
estão fartos das mentiras da mídia. Então, eu queria saber, em sua
opinião, qual a razão disso, pois a maioria dos jornalistas
americanos consideram-se muito democratas, bastante esquerdistas,
então eu não entendo... Gostaria de saber a sua opinião sobre
isso.
Moore: A principal coisa que ouvimos dos americanos saindo
do cinema é: “Por que não vejo isso no noticiário da noite? Como é
que eu não soube disso antes? Onde estavam estas cenas?” Eu
realmente não pretendia que isso se tornasse um dos principais
temas do filme, mas acabou virando uma das coisas PRINCIPAIS que
as pessoas aprendem com o filme: que a mídia americana fingiu-se
de morta e abanou o rabinho para George W. Bush e essa guerra, e
prestou um enorme desserviço ao povo americano, porque, como
sabem, a melhor coisa de viver numa sociedade livre é que você
pode fazer a pergunta que quiser. Qualquer pergunta. Você não pode
ser preso por fazer uma pergunta. O que os impediu de fazer uma
pergunta e exigir as provas? Onde estão as tais armas de
destruição em massa? Sabe, quando eu era moleque, eu me lembro de
estar sentado assistindo a John F. Kennedy na televisão, mostrando
ao povo americano uma fotografia enorme com uma setinha: “Aqui
estão os mísseis apontados para nós que estão sendo instalados em
Cuba.” Certo? Onde estava esse tipo de prova? O que tivemos foi
Colin Powell nas Nações Unidas com uma porção de desenhos de
computador que qualquer aluno de ginásio poderia ter feito. Foi
uma vergonha e foi ridículo, e todos engoliram isso na imprensa e
agora estão envergonhados. E a mídia americana, se vocês tiverem
visto na última semana, está me atacando com tudo que tem direito,
porque esse filme está sendo embaraçoso para eles, especialmente
para o jornalismo da televisão.
O filme os denunciou por não serem jornalistas responsáveis e por
não fazerem seu trabalho. E, se eu fosse um jornalista nos EUA e
estivesse vendo um cara de boné de beisebol com uma educação
colegial sendo aquele que pela primeira vez conta esses fatos e
mostra essas coisas aos americanos, deixando que ouçam dos
próprios soldados na guerra, em primeira mão, que eles são contra
a guerra, que eles não querem voltar para a guerra... por que é
que não vemos isso no noticiário do horário nobre? Vocês sabem, é
porque estão todos na cama, amasiados, NA CAMA com a administração
Bush e trabalham para redes de TV que também têm parte com a venda
de armas, como a NBC, que pertence à GE. Eles prestaram um
desserviço enorme para o povo americano nesta guerra, ao não
fazerem de antemão as perguntas difíceis, e neste exato momento
mais de 860 de nossos jovens estão mortos, como resultado de a
mídia não ter feito o trabalho dela. Imaginem se eles tivessem
feito seu trabalho, talvez não estivéssemos nesta guerra, e
lamento dizer isto, mas acho que o sangue desses garotos está nas
mãos dos jornalistas também. E eles não gostam que eu diga isso,
então...
Alessandra Baldini, da agência de notícias Ansa, da Itália:
e tenho uma continuação às perguntas australianas: qual você acha
que será o impacto do filme na Itália, onde talvez as coisas sejam
um pouco diferentes?
Moore: Eu acho que os espanhóis começaram. Eles tiraram seu
primeiro-ministro, que não escutou a vontade do povo, e espero
sinceramente que os australianos, os italianos e os outros que se
juntaram ao Sr. Bush nesta guerra também sejam removidos pelos
cidadãos de seus países, e eu espero que este filme ajude a fazer
isso. Não consigo me imaginar sentado num cinema italiano
assistindo a este filme e sair duas horas depois, pensando: “O que
diabos ele estava fazendo aliando-se com George W. Bush?
Isso é uma vergonha para a Itália”, e o quanto antes houver uma
mudança de regime em Roma, tanto melhor. (falando fora do
microfone) Hein? Na Espanha? Para os espanhóis assistindo a este
filme? (risos) Bem, eu acho que o povo espanhol pode simplesmente
ir ver o filme e ficar metido. (risos) “Sim, nós sabíamos. NÓOOS
sabíamos! Nós nos livramos dele. Nós fizemos nossa parte, Mike.” A
Propósito: Eu não acho que eles realmente falem desse jeito na
Espanha.
Suzanne Garrantly, do Irish Independent, da Irlanda:
Não sei se você teve oportunidade de ler o New York Times no fim
de semana, mas tem havido muita polêmica em torno de uma
entrevista que Carol Coleman (jornalista irlandesa, da rede de TV
RTE) fez com o presidente Bush.
Entrevista completa de Carol
Coleman com Bush
http://www.whitehouse.gov/news/releases/2004/06/20040625-2.html
Moore: Ela é
uma heroína para todos nós americanos. Pois nós americanos estamos
procurando por nossa Carol Coleman. Quem é nossa Carol Coleman?
Por acaso algum de nós nos EUA, qualquer um de nós, viu um único
âncora ou jornalista enfrentar o Sr. Bush com uma pergunta difícil
e não deixar que ele fuja, quando tenta responder com papo furado?
Foi um momento de grande catarse ver Carol Coleman fazer aquilo
com George W. Bush, e nós apenas ficamos pensando aqui nos Estados
Unidos: “Quem é nossa Carol Coleman?” Desculpe eu ter interrompido
sua pergunta... Desculpe, prossiga.
Suzanne Garrantly: Eu que fui a consultora de Carol Coleman...
Não, brincadeira... Bem... (risos)
Moore: Você é como eu. Sabe, vou lhe contar a história de
como eu escrevi o discurso de Adrien Brody (ator do filme O
Pianista) no Oscar. Lá estava eu dizendo a ele na véspera do
Oscar: “Escute aqui, sabe, não fale nada político. Apenas suba lá
e fale sobre o seu amigo que está ali agora e torne o discurso bem
pessoal...”
Suzanne Garrantly: Eu apenas disse a ela que usasse uma
roupa vermelha, pois, você sabe, assim vinha o touro... Bush...
Mas, de qualquer modo, quanto ao editorial do New York Times, eles
fizeram questão de dizer que nenhuma entrevista tinha sido
concedida a eles desde que o Sr. Bush tornou-se presidente; eles
também apreciam que você tenha dado os parabéns a Carol Coleman,
mas eles meio que reclamaram. Quero dizer, aqui está o jornal mais
importante dos Estados Unidos como que choramingando por não lhe
ser concedida uma entrevista com o presidente dos Estados Unidos,
mas por acaso eles não têm a oportunidade de fazer perguntas ao
presidente todos os dias por meio do jornal? E a minha segunda
pergunta a você é a seguinte: você realmente considera isso um
documentário? Porque do mesmo o modo como você procedeu hoje, você
entrou e disse que tinha uma agenda política específica. Isso faz
deste filme propaganda ou um documentário?
Moore: O New York Times vai apoiar alguém para presidente
dos Estados Unidos. Isso faz com que não seja um jornal? Isso faz
com que eles não sejam jornalistas? Sim, é claro que é um
documentário. É uma obra de jornalismo, mas é o jornalismo da
página de opiniões. É a minha opinião baseada em fatos. Fatos
irrefutáveis, e depois eu exponho minha opinião, minha teoria,
minhas perguntas. Minha opinião pode estar certa ou errada.
Acontece que eu acho que está certa, porque é a minha opinião, mas
pode ser que eu esteja errado. VOCÊ pode estar certa. OUTRA pessoa
pode estar certa. Tenhamos essa discussão. Vamos ter o debate. Mas
os fatos que apresento no filme são fatos, e eles são
irrefutáveis. Quanto ao lamuriento New York Times, nós estamos bem
acostumados nos EUA que os chamados esquerdistas sejam um bando de
chorões. Eles geralmente são moles como geléia. Eles sempre
parecem não ter medula. Você sabe, o partido democrata não é capaz
de ganhar uma eleição nem sequer quando ele GANHA. Você sabe...
quero dizer que eles são derrotados quando ganham. São patéticos a
esse ponto. E eu e as pessoas que trabalhamos neste filme
simplesmente decidimos que, quer saber, nós simplesmente vamos ter
de salvá-los deles mesmos. Não podemos ficar esperando que eles
façam o trabalho, pois eles não vão fazer o trabalho. É isso que é
tão incrível. Os republicanos e os direitistas, eles acreditam em
algo, certo?
Eles ACREDITAM em algo e lutam para defender isso. Já o outro
lado: bem, certo, acho que podemos entrar em guerra contra o
Iraque e eu acho que podemos ter leis antiterrorismo. Não soa tão
mal, e ele não vai falar conosco como falou com Carol Coleman”
Sabe, estou tão farto disso e, vou lhes dizer, milhões de
americanos estão fartos disso. Somos esquerdistas de saco cheio.
Estamos cheios de toda essa fraqueza e covardia, quer dizer, nunca
chegaremos a lugar NENHUM, e é por isso que o outro lado sempre
vence, o que é triste, considerando que vivemos num país
esquerdista. A maioria dos americanos é de esquerda. É que eles
não chamam a si mesmos de esquerdistas, mas se perguntarem à
maioria dos americanos... vejam todas as pesquisas independentes,
a maioria dos americanos é a favor do aborto, a maioria dos
americanos quer leis ambientais mais fortes, a maioria dos
americanos quer leis de desarmamento, a maioria dos americanos é
bastante liberal. Apenas não tiveram uma liderança de esquerda nas
últimas duas décadas. Tornou-se quase um oxímoro (figura que
consiste em reunir palavras contraditórias) dizer isto, liderança
de esquerda, pois eles não lideram; eles seguem. E a maioria de
nós, a maioria esquerdista, a VERDADEIRA maioria esquerdista está
farta disso e vamos exigir que eles sejam firmes.
Hans Janitschek, da República Tcheca, do jornal austríaco, o
Kronen Zeitung.
Moore: Com licença, você é da Tchecoslováquia? A República
Tcheca, ou...
Hans Janitschek: Quase isso. Meu nome é tcheco, não é
austríaco. É a parte da Áustria perto da República Tcheca onde o
seu filme terá sua estréia no Festival (inaudível) daqui a alguns
dias. Mas os austríacos, e é esta a minha pergunta, estão com
muita inveja dos tchecos, pois acabo de saber que...
Moore: Ah, faça-me o favor, ouvimos isso há anos.
Hans Janitschek: Não, não, não...
Moore: Estamos por aqui de os tchecos reclamarem dos
austríacos.
Hans Janitschek: Não, mas eu ainda não lhe disse... Eu não
fiz minha pergunta. Fiquei sabendo que a estréia do filme na
Áustria e na Alemanha será adiada. Os tchecos ficaram muito
orgulhosos de terem sido os primeiros a conseguir o filme depois
de Cannes e os austríacos e os alemães esperavam que estreasse nos
cinemas semana que vem, e agora fiquei sabendo que o contrato será
renegociado entre o distribuidor aqui e os distribuidores na
Áustria e na Alemanha. Imagino se você... Espero que eu esteja
errado, mas de qualquer modo...
Moore: Não sei o que está se passando aí. Tudo que ouvi
dizer foi algo sobre o distribuidor alemão estar tentando tirar
vantagem de mim. Isso é tudo, e não sei de mais nada sobre isso...
Eles estavam tentando me roubar, e eu disse que é muito
não-germânico da parte deles tentar roubar alguém. Pois, como se
sabe, eles são tão... Quero dizer que os empresários alemães são
conhecidos por sua honestidade e integridade, mas eu realmente não
posso fazer comentários sobre o ocorrido. (risos, aplauso) Bem, eu
acho que, em nome do povo americano, nós gostaríamos de agradecer
ao povo da Áustria por ter nos dado o governador da Califórnia
(risos) pois, você sabem, sem o país que, por assim dizer, o
moldou nesse indivíduo musculoso que ele se tornou, nós jamais o
teríamos, de modo que podemos ter nosso primeiro presidente
austríaco neste país, sabem, o que é bem legal. Os alemães tiveram
uma vez um presidente austríaco e agora NÓS podemos conseguir um
também.
Antonia [Chagas], de O Estado de São Paulo, do Brasil:
Os brasileiros estão no Haiti agora jogando futebol. Então,
falando a longo prazo, sobre seu objetivo de trabalho a longo
prazo, eu gostaria de saber se você tem algum plano de fazer um
documentário sobre as conseqüências sociais das políticas
americanas em outros países.
Moore: Sim, na verdade eu gostaria de fazer isso. E eu
tenho algumas idéias sobre isso que eu não quero debater
publicamente, mas fico muito preocupado com o impacto que os
Estados Unidos têm no mundo e a espécie de desconsideração
imprudente que as corporações americanas têm pelas pessoas em
redor deste planeta, e as coisas que são feitas em nosso nome
muitas vezes são desencorajadoras, para dizer o mínimo, e houve
uma cena que bolamos para este filme – pedimos que um monte de
freelancers do mundo todo nos enviassem algumas fitas de vídeo.
Pedimos que eles saíssem nas ruas do Brasil, do Quênia, da França
e de outros lugares e perguntassem: “O que você acha dos
americanos?” Pois George Bush tinha feito um discurso sobre como
essa gente não gosta de nós, sabe, como eles não gostam do nosso
estilo de vida. E eu fiquei pensando: “Quem são ‘eles’?” Porque em
minhas viagens pelo mundo, eu na verdade percebo que a maioria das
pessoas realmente gostam dos americanos enquanto indivíduos, e
então o que eu queria dizer no filme era: “Na verdade, Sr. Bush,
eles gostam de nós – é de VOCÊ que eles não gostam e eles não
gostam o que nossos amiguinhos corporativos fazem nos países
deles.” Eu não sei, pensei um bocado sobre fazer uma série de
coisas como essa, mas agradeço ao povo do Brazil por não fazer
parte dessa Coalizão. Eu sei que foi feita muita pressão sobre o
Brasil para que se juntasse à coalizão e só posso imaginar o que
está sendo negado em termos de ajuda ou auxílio, como resultado de
o Brasil NÃO ter concordado em participar desta guerra.
Max Kolonko, da Televisão Polonesa:
Michael, quanto ao título, Fahrenheit 11 de Setembro, eu só queria
perguntar como foi que você bolou esse título. E, como você sabe,
Ray Bradbury, o autor de Fahrenheit 451, está muito chateado por
você ter usado, diz ele, o título dele para o seu filme. O que ele
diz é que não quer nenhum dinheiro, só quer reconhecimento. Você
deveria admitir que usou o título dele para o seu documentário.
Como foi que você bolou esse título?
Moore: O título estava no assunto do cabeçalho de um e-mail
que eu recebi de um fã na noite de 11 de setembro de 2001, e eu
estava apenas descendo na tela do meu computador e lá dizia
“Fahrenheit 11 de Setembro”, o que simplesmente... mexeu comigo.
E, com o passar dos meses, eu pensei sobre como Fahrenheit 451 era
a temperatura em que os livros queimam, e à medida que começaram a
nos tirar as liberdades civis e outras coisas neste país, eu
pensei que talvez esta fosse a temperatura em que a LIBERDADE
queima... caso eles se safem, se eles conseguirem usar a morte de
três mil pessoas para justificar a agenda política da
administração Bush. Assim, eu decidi que seria esse o título do
filme. Quanto a Ray Bradbury, nós temos um respeito enorme por
ele. Ele é um autor muito amado. Todo mundo adora Fahrenheit 451.
O filme fez um bem enorme ao livro dele. Se você entrar na Amazon
hoje, verá que Fahrenheit 451, um livro de pelo menos 40 anos
atrás, está na lista dos cem livros mais vendidos da Amazon acima
do MEU livro. O filme levou muitos jovens a esse livro. E, sabe,
os títulos, para começar, não podem ser registrados, os títulos
são... Ray Bradbury sabe disso mais do que ninguém. Ray Bradbury
escreveu um livro intitulado Something Wicked Comes this Way. Essa
é uma fala de MacBeth.
Ray Bradbury escreveu um livro intitulado The Golden Apples of the
Sun. Esse é um verso de um poema de Yeats. Ray Bradbury escreveu
um livro intitulado I Sing the Body Electric. Esse é o título de
um poema de Walt Whitman. Ray Bradbury durante sua vida toda
apropriou-se de títulos e versos de Shakespeare, Yeats e Whitman.
Então, acho que ele entende que é perfeitamente legítimo fazer
isso e, na verdade, às vezes é até uma coisa boa a se fazer. A
verdade é que Mel Gibson está tentando fazer uma nova versão do
filme Fahrenheit 451, e é a companhia de Mel Gibson, e isso é tudo
que eu quero dizer sobre isso.
Matthew Philips. Sou um jornalista freelance da Austrália.
Você alguma vez já... desculpe...
Moore: Não, eu só ia lhe dizer... Todos vocês leram sobre
Ray Bradbury ter ficado chateado por causa do título? Não é
estranho que nem um único jornalista... e quero dizer que isso
é... novamente, não pretendo, vocês sabem, bater de frente com
nossa preguiçosa e não muito inteligente imprensa americana, mas
eu li todos os artigos e estou esperando que algum jornalista
literato lembre que Something Wicked Comes this Way é um verso
famoso de MacBeth. Ou então que o famoso poema de Walt Whitman tem
o mesmo título do qual Ray Bradbury se apropriou.
Pois eu não quero atacar Ray Bradbury, então eu fico: bem, alguém,
ALGUÉM vai dizer: “Espera um pouco, Mike nem mesmo está chamando o
filme dele de ‘Fahrenheit 451’. Ray Bradbury fez X, Y e Z...” Eu
não li essa história em lugar nenhum, e é simplesmente... É um
pequeno exemplo do que nós, o povo americano, temos de agüentar
todo santo dia de uma imprensa preguiçosa e inadequada que se
recusa a fazer o trabalho dela e a contar a verdade inteira.
Desculpem-me por isso.
Matthew Philips: Não, claro, tudo bem. (risos) Se me
permite perguntar, você chegou a ter alguma resposta específica de
John Kerry sobre tudo?
Moore: Nunca me encontrei ou conversei com John Kerry ou
qualquer membro de sua campanha. Então, não sei nem se ele viu o
filme. Eu não o apoiei publicamente. Eu não dei respaldo a ele
durante as primárias porque eu disse que não apoiaria nenhum
candidato que votasse a favor da guerra. Então, é essa a sua
pergunta ou...?
Matthew Philips: Porque, quero dizer, seria seguro afirmar
que esse filme terá um efeito direto na campanha dele? Digo, há
uma cultura nos EUA de “qualquer um menos Bush”, e ele parece ser
o primeiro candidato. Então, automaticamente é como dizer: “Vamos
tirar Bush e colocar Kerry”, talvez?
Moore: Correto, há milhões de americanos que votariam em
suas meias contra George Bush. Isso é verdade. Mas se o filme terá
um impacto nele ou nas chances dele cabe a você decidir por meio
de sua investigação, conversando com os americanos que saem dos
cinemas, baseando-se em sua própria análise. Eu não sei. Eu não
planejei fazer este filme para fazer com que um democrata seja
eleito. Não havia nenhum John Kerry concorrendo à presidência, ao
menos não que eu soubesse, quando comecei a fazer este filme,
então... você sabe, essa é a minha resposta a isso. E quanto a
Edwards, foi isso que você perguntou? Hein? Não estou dizendo para
quem eu vou votar.
Não creio que seja esse o meu trabalho no momento. Não quero dizer
às pessoas o que fazer na cabine de votação. Sou um cineasta e
deixei bem claro o que sinto com relação a George W. Bush. As
pessoas podem concluir o que cada um deve fazer. (perguntas fora
do microfone) Eu os estou encorajando a remover George W. Bush da
Casa Branca. (perguntas fora do microfone) Parece que isso
equivale a, sim... a dizer que se deve votar em John Kerry, não é
mesmo? (perguntas fora do microfone) Por alguma razão, eu ainda
não consegui juntar esses dois pensamentos na minha cabeça.
(risos) Tenho muita coisa em mente.
Gerald Baars, da rede de TV alemã ARD, e na Alemanha:
você sabe, você é um grande herói, e os jornalistas alemães também
não fazem o trabalho deles, pois nenhum deles se esforça o
bastante para entender George W. Bush e eles são muito, muito
anti-americanos, como diria a imprensa de vocês. Agora, por outro
lado, seus críticos alegam que falar mal de Bush é muito
lucrativo, tanto na Alemanha quanto aqui nos EUA, e que você ganha
uma fortuna com suas declarações não patrióticas no filme. Qual a
sua resposta a eles?
Moore: Bem, isso foi parte do meu grande plano desde o
começo. (risos) O que você quer que eu diga sobre isso? Estou...
Gerald Baars: Na verdade, falando sério, eu tentei ser um
pouco engraçado, mas...
Moore: Eu sei, e você está tomando tempo valioso de
não-alemães que gostariam de fazer perguntas. Só estou brincando.
Gerald Baars: Sim, eu sei. Você segue suas ordens. (risos)
Tempo esgotado. Não, falando sério, o que os seus críticos dizem,
é claro...
Moore: Quem são esses críticos? Gostaria que me dissesse os
nomes deles.
Gerald Baars: Bem, falo de grupos republicanos direitistas
que organizam campanhas para que seu filme não seja distribuído ou
que julgam seus comerciais na televisão eleitoreiros e portanto
ilegais e assim por diante... E eles também dizem que você não
passa de um cara ganhando rios de dinheiro. Falar mal de Bush é
muito popular e esse foi o seu jeito... quer dizer, o mercado que
você descobriu, o seu nicho.
Moore: Sabe, é engraçado. Meses atrás, critiquei Bush no
palco do Oscar. Eu diria que isso não foi uma coisa popular de se
fazer. Concorda com isso? Foi um risco incrível que eu assumi, e
mais de um jornal escreveu no dia seguinte: “Finalmente, essa foi
a última vez que tivemos de ouvir falar em Michael Moore. É o fim
da carreira dele.” Fui vaiado para fora do palco do Oscar. Isso
foi há somente 15 meses... há 14 meses. Eu não sei, que dia é
hoje... Foi em março. Faça as contas. Então, eu assumi uma porção
de riscos durante a minha vida para dizer coisas que às vezes não
são muito populares num dado momento, mas eu confio que o povo
americano mais cedo ou mais tarde vai mudar de idéia, como fez
quanto a esta guerra e como fez quanto a George W. Bush, e a boa
notícia é que, ao contrário do Vietnã, em que o povo americano
levou anos para descobrir a verdade, no caso do Iraque levou
apenas meses.
Tomohiro Machiyama, sou do Japão.
Moore: Obrigado por ter vindo até aqui.
Tomohiro Machiyama: Tudo bem, não tem de quê. Tenho aqui um
artigo sobre a declaração...
Moore: Eu sempre considero importante ser educado com os
japoneses, não concordam? Pois eles são sempre tão educados com a
gente, não é? Já perceberam isso? Não? Não acham?
Tomohiro Machiyama: Posso continuar?
Moore: Sim. Bem, isso não foi muito educado...
Tomohiro Machiyama: A declaração feita pelo dono do cinema
Midwest, talvez você saiba, eles recusam-se a exibir o seu filme.
Esta é a declaração do dono: “Nosso país está numa guerra contra
um inimigo que destruiria nosso estilo de vida e mataria nossa
gente”, mas o Iraque não foi o terrorista do 11 de setembro, mas
muitos americanos ainda acreditam em besteiras como que o Iraque
matou novaiorquinos. Sabe...
Moore: Retiro o que eu disse sobre ser educado. Agora você
está GRITANDO! Quando foi que vocês japoneses começaram a gritar
desse jeito?
Tomohiro Machiyama: Sim, sou um japonês educado. (risos)
Sim, mas o que você faz com o tipo de pessoas que ainda acredita
que o Iraque foi responsável pelo ataque de 11 de setembro?
Moore: Sim, para começar, tem razão. Não é só uma mas sim
três cadeias de cinema que estão se recusando a exibir o filme.
Duas delas fizeram declarações públicas de que, em razão da
guerra, elas não vão exibi-lo. 40% do povo americano ainda
acredita que Saddam Hussein estava envolvido com o 11 de setembro.
Mas esse número já foi de 70%, então, você entende o que estou
dizendo? 30% deles... essa queda de 30% aconteceu porque, diante
da verdade, o povo americano mudou de idéia. Então, tenha um pouco
de esperança, tenha um pouco de esperança que eles estão
lentamente percebendo as coisas, e se o meu filme puder ajudar só
um pouquinho e tocar algumas pessoas, tanto melhor. Com relação a
essas cadeias de cinema que se recusam a exibir o filme, não é
esse o espírito democrático dos EUA Deveriam mostrar todos os
pontos de vista, todos os lados, e deixar as pessoas decidirem.
David Rooney, da Variety. Só estou especulando. A
propaganda desse filme será significativamente diferente nos
territórios internacionais do que foi nos Estados Unidos? Você
estará envolvido nesse processo de alguma forma? Que quantia de
dinheiro os distribuidores internacionais estão gastando na
propaganda e venda do filme, comparando com quanto eles gastariam
normalmente com um documentário?
Moore: Essa é uma boa pergunta. Lamento, David, mas não
tenho a resposta de quanto estão gastando. Posso lhe contar o que
eu estou fazendo. Este é o meu dia de coletiva à imprensa
internacional. Não estou viajando com o filme para os outros
países, pela razão que eu dei no início, ou seja, que estou
dedicando toda a minha atenção e esforços para garantir que tantos
milhões de americanos vejam este filme quanto for possível, e
depois estou fazendo o que posso para me certificar de que os 50%
que não votam considerem votar. Então, eu planejo atuar bastante
de hoje até o dia 2 de novembro, e estou pedindo a compreensão de
meus fãs no exterior, que sabem que eu preciso estar aqui fazendo
isto, pois eu adoraria viajar com este filme. Eu adoraria vê-lo no
Brasil com um público brasileiro. Eu adoraria vê-lo na Espanha. Eu
nunca estive no Japão. E ofereceram-me a oportunidade de fazer
tudo isso, e infelizmente eu apenas... meu foco é aqui neste país
e eu acho que vocês entendem isso. Mas eu farei tudo que puder
para garantir que... para ter certeza de que as pessoas saibam
desse filme, pois eu quero que as pessoas nos outros países saibam
que não é somente Michael Moore.
Eu não sou o único americano que se sente assim. Eu acho que há
uma impressão falsa que é passada de que eu penso que muita gente
em muitos outros países acha que o país todo enlouqueceu ao apoiar
essa guerra, ao apoiar Bush. Essa não é a verdade. Eu faço parte
da maioria americana. A maioria dos americanos jamais votou para
esse homem, a maioria dos americanos agora está contra essa
guerra, e eu estou solidamente no meio dessa maioria, e preciso
que outras pessoas em outros países escutem isso. Eu sei que as
pessoas nos seus países gostam dos americanos como pessoas. Eu sei
que vocês ficam encantados com algo em nós, com nossa simplicidade
e nosso... não, falo isso de um jeito bom... pois somos
simplesmente, tipo: “E aí, como vai? Há Há... Yeah!” Vocês sabem,
não sabem? Eu sei que vocês gostam disso em nós. O modo como
sempre estamos para cima, certo? Sim! E somos otimistas... “Ah,
sim! Podemos fazer qualquer coisa! Há há há há!” E falamos alto!
(risos) Então, só quero que o resto do mundo volte para aquele dia
12 de setembro, quando todos os corações do mundo tiveram
compaixão deste país, e eu me sinto muito mal de termos nos
aproveitado de tanta boa vontade desde aquele dia, o dia seguinte
ao 11 de setembro.
Sr. Moore?
Moore: Sim?
Dan McDonald, jornais Mainichi, Tóquio, Japão. Você poderia
responder à acusação de que o seu filme...
Moore: Não é adorável uma pergunta que começa... e sua
cabeça começa a pensar: “Certo, o que eu fiz em 1978, 79...?”
Desculpe...
Dan McDonald: De que seu filme apresenta um retrato injusto
da família Bin Laden como um todo e do povo saudita em geral?
Moore: Oh, eu espero que não. A família real saudita são os
únicos sauditas aos quais me refiro em termos de sua amizade com a
família de Bush e os amigos da família de Bush. A família real
saudita – detesto usar o termo “real” com eles, pois soa tão
“vamos tomar chá no Palácio de Buckingham”! É uma ditadura brutal.
É um Estado policial. Eles celebraram a passagem de ano há alguns
anos decapitando três homens pelo crime de serem gays. Não sei o
que estamos fazendo ligados com esse país. Bem, quer dizer, eu SEI
sim... Pois nós gostamos de dirigir veículos grandes tipo Arnold
Schwarzenegger. E assim por diante... Não tinha ouvido essa
acusação de não retratar bem o povo saudita. Tenho muita pena do
povo saudita, que eles tenham de viver sob o jugo dessa ditadura.
Quanto à família Bin Laden, todos os Bin Laden eu assumo que são
inocentes até que se prove sua culpa, e eu apenas achei um pouco
estranho que quando eu fui abandonado no 11 de setembro, em Los
Angeles, e não pude entrar num avião e então tive de dirigir quase
cinco mil quilômetros para chegar em casa, se o meu nome fosse Bin
Laden, um telefonema especial poderia ser feito para a Casa Branca
para pedir algum meio de eu chegar aonde queria ir. Eu não entendo
por que esse tratamento especial foi dado à família real saudita e
à família Bin Laden. O que estava acontecendo aí? Acho que essa é
uma pergunta legítima a se fazer. E, dos 142 membros da família
real saudita que conseguiram sair do país nos 9 dias seguintes, 30
deles foram entrevistados pelo FBI. 30 de 142. Estávamos tirando
todo mundo que parecesse árabe ou algo assim dos aviões.
Estávamos jogando as pessoas na cadeia sem acusação. Lembra-se
disso? Apenas por causa da cor da pele, ou por terem um nome
diferente que soasse árabe, ou porque tinham ligação com alguma
coisa em algum lugar. Nós negamos às pessoas suas liberdades civis
e seus direitos... mas, se você for da família real saudita ou se
for um Bin Laden, ei, aqui está, vamos lhe dar uma mãozinha. Pode
imaginar se 15 dos 19 seqüestradores fossem da Coréia do Norte ou
da Líbia, se o embaixador libanês ou norte-coreano poderia ligar
para a Casa Branca e dizer: “Ei, precisamos de ajuda para tirar o
máximo possível de nossos compatriotas do país de vocês”. “Ei,
claro, sem problema! Somos americanos otimistas, vamos nessa!”
Não, eu acho que não. Eu acho que não. Eu gostaria de ouvir uma
resposta a essa pergunta. É só uma pergunta. Não acha que é uma
pergunta legítima? Eu acho que é. A família real saudita é uma
corporação, eles têm muito dinheiro e investiram muito do seu
dinheiro em coisas que são próximas e muito prezadas pelos Bush,
pelos amigos dos Bush e pelo círculo íntimo dos Bush ao longo dos
anos.
Alejandro Fernande, do Chile, num jornal chileno:
e nós também nos opusemos à votação e ao conselho de segurança,
então, eu gostaria de lhe perguntar: você acabou de falar do que
aconteceu com os Bin Laden, mas foi esse o ponto que foi tão
criticado pela mídia, como por exemplo a revista Time aqui, a qual
disse que pelo menos três fatos no seu filme são falsos. Qual a
sua resposta para isso?
Moore: Cite um fato. Todos os fatos no filme são verídicos.
Alejandro Fernande: Sim, é que... eles dizem...
Moore: O que dizem eles?
Alejandro Fernande: Dizem que os sauditas que foram embora
foram mais de 142, e então o esclarecimento deles – foram eles que
usaram a palavra “esclarecimento” – foi que permitiu-se que um
avião deixasse os EUA O segundo ponto é que o US$ 1,4 bilhão do
Carlyle Group à família Bush...
Moore: Sim?
Alejandro Fernande: Dizem que um crédito de aproximadamente
US$ 1,18 bilhão foi dado ao Carlyle Group, mas, dizem eles, isso
foi antes de George Bush pai fazer parte da...
Moore: O que meu filme diz é que a família real saudita deu
esse dinheiro a negócios conectados a Bush ou a amigos e
associados da família de Bush. James Baker estava envolvido com o
Carlyle Group e trabalhava para o Carlyle Group, assim como era o
chefe da secretaria de administração e orçamento de Bush, assim
como presidiu a campanha de Bush. Estavam todos trabalhando para o
Carlyle Group enquanto os sauditas faziam seus investimentos no
Carlyle, e essa é uma companhia em que George W... Ele trabalhou
na direção de uma companhia da qual o Carlyle Group era dono no
começo da década de 1990. George pai juntou-se ao Carlyle Group no
final da década de 1990, e os fatos estão todos lá. Está tudo lá.
E um avião saudita voou mesmo no dia 13 de setembro, enquanto o
espaço aéreo estava fechado. O avião particular dos sauditas voou
de Tampa a Lexington, Kentucky, pegando nobres sauditas no
caminho. Isso agora é um fato. O St. Petersburg Times noticiou
isso faz duas semanas. O aeroporto de Tampa acaba de confirmar, e
a Comissão 11 de setembro decidiu rever aquilo que eles
originalmente julgaram não ser aviões voando enquanto o espaço
aéreo estava bloqueado. A família real saudita... Quando dizem que
foram feitas entrevistas, somente 30 dos 142 sauditas foram
entrevistados pelo FBI antes de abandonarem o país. Trinta. Isso é
um fato que é declarado pela Comissão do 11 de setembro. Cada fato
no filme é verídico. Eu desafio qualquer um a encontrar um único
fato no filme que não seja verdadeiro. Agora, mais uma vez, separe
os fatos das opiniões. As opiniões que eu expressei são minhas, e
podemos debatê-las. Mas se eu lhe digo que foi US$ 1,4 bilhão que
saiu da família real saudita os Halliburton, os Baker, tudo isso.
É um fato, um fato verificável, e o que eu vou fazer, a partir de
amanhã ou de depois de amanhã, no meu web site (www.michaelmoore.com/warroom/f911notes)
será simplesmente incluir todas as provas de que disponho, direto
no meu site.
Pois eu tenho 30 páginas que vou publicar assim. Vocês podem
baixá-las e imprimi-las, e terão a possibilidade de citar cada uma
das fontes que eu tenho, para cada detalhe que aparece neste
filme. (perguntas fora do microfone) Sim, entendi tudo depois que
o Talibã visitou o Texas e se reuniu com os amigos de Bush que
comandam o pétroleo lá no Texas. Minha pergunta no filme é: o que
o Talibã estava fazendo no Texas, o que estava fazendo nos Estados
Unidos? E essa é uma pergunta que deveria ter sido feita na época
tanto a Clinton quanto a Bush, no Texas. Mas Bush é o presidente
no momento, estão eu pergunto a ele o que o Talibã estava fazendo
no Texas enquanto ele era governador, e o que estava acontecendo
com esse oleoduto, e agora por que é que houve, repentinamente, um
novo acordo de oleodutos que foi assinado entre os três países,
Turcomenistão, Afeganistão e Paquistão, para agora construirem um
novo oleoduto em algum lugar aqui no futuro. Provavelmente não
será a Unocal, mas eu não sei qual... eles ainda não têm as
companhias petrolíferas que construirão isso. Mas, claramente,
essa é uma pergunta legítima a ser feita, pois aqueles dentre nós
que queremos realmente pegar qualquer um que tenha algum
envolvimento com o assassinato de três mil pessoas, nós os
queremos capturados e nós os queremos trazidos à justiça. E não é
disso que se trata a guerra no Afeganistão.
Tratava-se de invadir um país para remover sua liderança, o Talibã,
para que assim pudéssemos governar o país, essencialmente, por
meio de mediadores. Está bem? Pois se tratasse de capturar Osama
Bin Laden, então eu teria de dizer que a missão fracassou. Como
disse Richard Clark, eles não permitiram que as forças especiais
fossem para onde acreditavam que Bin Laden estava havia dois
meses. Então, vamos começar fazendo algumas perguntas difíceis
sobre a administração Bush. O que diabos estava acontecendo no
Afeganistão? O que o Talibã estava fazendo no seu Estado,
visitando seus patrocinadores, numa época em que o senhor era
governador? E também para a imprensa americana, pois, como eu
mostro no filme, somente a BBC cobriu isso na época. Onde estava a
imprensa americana? Pode imaginar uma delegação de alguma outra
ditadura visitando Albany e depois indo para uma reunião com
empresários de corporações do Estado de Nova York e ninguém da
imprensa cobrir o evento? Talvez eles não quisessem cobrir isso. É
muito triste, se for esse o caso.
Meu nome é Sabrina...
Moore: Vou encurtar minhas respostas, para que consigamos
responder ao máximo possível de perguntas...
Sabrina Cohen, do Panorama, da Itália. Tenho duas perguntas
que remontam ao alvo principal do seu filme. A primeira é que, já
que você quer tirar Bush da Casa Branca, você pretende participar,
caso seja convidado, da convenção democrata em Boston? E então...
Moore: Eu não quero ir lá.
Sabrina Cohen: Por que não? É divertido. Aparentemente, é
isso que todos dizem.
Moore: Não me parece nada divertido. Quer dizer, o verão em
Boston...
Sabrina Cohen: Certo, a outra coisa é que... Essa é só por
curiosidade. A maioria das pessoas, quando sai do cinema, fica se
perguntando quem lhe deu as cenas de Wolfowitz. Aquela em que...
falo das cenas nojentas. Porque todos estavam saindo do cinema
aqui no Lincoln Center, e todo mundo ficava dizendo: “Bom filme,
mas quem deu a ele aquelas imagens desagradáveis?”
Moore: Não posso dizer. Não posso dizer. Obrigado. As
imagens de Bush na sala de aula, nós conseguimos de um professor
que as gravou naquele dia.
Jaeho Kim, do jornal Chosun Daily, da Coréia do Sul. Tenho duas
perguntas. Uma é que, mês passado, um refém da Coréia foi
decapitado no Iraque e, antes disso, alguns reféns americanos
foram decapitados no Iraque. Por que você acha que tragédias como
essa aconteceram no Iraque e você acha que isso se deve em parte à
má política do Sr. Presidente? E a outra pergunta é: você pode
doar parte do dinheiro que ganhou com este filme para o partido
democrata, para tirar o Sr. Presidente da Casa Branca?
Moore: Não... Bem, para começar, o filme e as corporações
de cinema não podem fazer doações para partidos políticos, e não
estou certo de que eu apoiaria que o fizessem, mesmo se pudessem.
Quanto às decapitações no Iraque, veja, a situação lá é trágica, e
acaba de piorar graças ao nosso envolvimento, e eu acho que quanto
antes as tropas americanas puderem ser tiradas de lá, melhor, e
que o povo iraquiano decida que tipo de força, força internacional
ou seja lá o que for, poderá entrar e ajudar com a restauração de
um jeito ou de outro, se é que isso é possível a esta altura.
Talvez não haja solução. Não sei qual seria. Não é...
Provavelmente nada ali vai ser muito bonito por um bom tempo.
Daniele De Luca, da Popolare, uma rádio italiana independente.
Muito bem. Algumas coisinhas. A primeira... o que você diria a um
rapaz que vai votar pela primeira vez e que depois de ver o seu
filme vai votar em Nader, e o que você pensa do fato de alguns
membros do congresso terem pedido que a ONU supervisione as
próximas eleições?
Moore: Bem, nós certamente precisamos de observadores para
as votações, como prevenção à fraude eleitoral em determinados
Estados, em certas áreas, e eu conversei com um grupo de advogados
ontem que vai oferecer seu tempo gratuitamente para ir à Flórida e
outros lugares, para garantir que eles não tentem roubar mais uma
eleição. Para alguém que vai votar em Nader, eu o encorajaria a
não fazer isso. Eu pedi... Eu encorajei Ralph a não concorrer. Ele
está cometendo um grande erro. Não é este o ano dele. Não é esta a
eleição dele. E eu não sei o que o está motivando a fazer isso. É
muito triste ver alguém que todos nós costumávamos respeitar muito
agir sozinho e tomar uma péssima decisão para este país. Tendo
dito isso, acabo de ver uma pesquisa que mostrou que 12% dos
eleitores jovens planejam votar em Ralph Nader. Fico espantado com
essa estatística, e a equipe de Kerry faria bem em parar de mover
seu candidato para o centro e para a direita, porque eles vão
perder um monte de gente na extrema esquerda, que vai acabar
votando em Nader, e essa é a pior coisa que pode acontecer.
Herbert Bauernebel, da revista Austrian News. Há algo mais
que as pessoas ao redor do mundo possam fazer para ajudar com a
mudança de regime dos Estados Unidos, além de assistir ao seu
filme?
Moore: Não há nada que vocês possam fazer no momento.
Realmente, está em nossas mãos e cabe a nós fazê-lo. Se vocês
acreditam em orações, podem fazer isso. Sabe, caso... eu não sei.
Prometam... Se você está na Áustria, prometa aos americanos que
votarem contra Bush férias gratuitas de esqui na neve... para os
americanos que puderem provar que não votaram em George W. Bush.
Alguma coisa assim, sabe? Se você for da Argentina, uma bela fatia
de bife para cada americano que votar contra Bush. Eu não sei.
Provavelmente tudo isso é ilegal. Eu não sei.
Sharon Cheung, da China Newsweek, em Pequim. Duas
perguntas. A primeira: o filme será lançado na China? A segunda:
se for, que mensagem você espera que o público chinês tire do
filme?
Moore: Eu espero que o filme seja lançado na China. Eu sei
que estão fazendo o acordo neste exato momento, e este pode ser o
primeiro documentário estrangeiro a ser lançado nos cinemas
chineses. Então, ficarei muito contente se isso acontecer. Espero
que o governo chinês não censure nenhum pedaço do filme, o que
ouvi dizer que está sendo debatido neste exato momento, e eu
espero que o povo chinês possa perceber, graças a este filme, que
há americanos como eu aos quais é permitido ser dissidentes neste
país e fazer filmes que criticam o governo, e que é importante
fazer isso em qualquer tipo de sociedade livre, e talvez, algum
dia, qualquer pessoa na China terá o direito de pegar uma câmera e
fazer o que quiser com ela para questionar seu governo.
Muna Shikaki, da Al Arabiya TV. Somos uma rede de notícias
árabe. O filme será lançado em algumas regiões do Oriente Médio,
então eu gostaria de saber que tipo de reação você espera do povo
árabe. E, além disso, muita gente no mundo árabe, me parece, está
criticando o filme por não fazer nenhuma referência a Israel e ao
apoio que os EUA dão à política israelense contra os palestinos. E
minha terceira pergunta é o que você acha dos democratas que estão
se distanciando de você por considerarem que o seu filme terá um
efeito prejudicial na campanha deles. O que tem a dizer sobre
isso?
Moore: Bem, qualquer democrata que pense isso é mais um
exemplo desses democratas fracassados com que temos de lidar. Este
filme não está fazendo nada além de informar bem as pessoas, tenho
certeza. Em segundo lugar, o motivo de este filme não mencionar
Israel e os palestinos é que eu acho que esse é um assunto para um
outro filme inteiro, e eu gostaria de fazer um filme desse tipo
algum dia. Este filme não inclui muitas coisas. Sabe, não há nada
nele sobre o casamento homossexual. Não digo isso para fugir da
pergunta, só estou dizendo que há muito material que eu poderia
incluir se quisesse fazer um filme sobre George W. Bush e o
casamento homossexual. (risos) O que eu estou dizendo não está
fazendo o menor sentido. E qual foi mesmo a primeira parte da sua
pergunta? Ah, não consegui entender o que disse depois que me
explicou que sua rede, que se chama Al Arabiya, é uma rede árabe,
e agradeceria que você repetisse para mim. Qual foi mesmo a
primeira parte?
Muna Shikaki: O filme será lançado no mundo árabe, então,
qual você acha que será a reação... que reação você espera ou
deseja, ou há algo que você queira dizer a esse respeito? Algum
comentário?
Moore: Novamente, a mesma coisa que eu disse ao nosso
camarada chinês aqui: eu espero que o filme encoraje as pessoas no
mundo árabe a se insurgirem contra os ditadores em seus países.
Não quero dizer de uma maneira violenta. Falo de fazer perguntas,
é isso que eu quero dizer. Lutar por aquilo em que acreditam.
Pegar uma câmera. Filmar a verdade. Mostrar a verdade às pessoas.
E eu, como americano, eu simplesmente não sei o que o meu país
está fazendo nesta parte do mundo agora, essencialmente dominando,
dirigindo, controlando dois países de uma vez, e o que é que
estamos fazendo nesses relacionamentos que nós temos com alguns
desses regimes. Eu simplesmente não entendo.
Serkin Arslan, do jornal Yeni Safak, da Turquia. Como sabe,
o Sr. Bush esteve no meu país semana passada. Devido a essa visita
do Sr. Bush à Turquia semana passada, muitos bombardeios
aconteceram no meu país e quatro vítimas inocentes morreram. Dois
oficiais de polícia perderam suas pernas enquanto tentavam
desativar algumas bombas. As mãos de dois funcionários do
aeroporto explodiram em pedaços e um deles ficou cego. Estou sendo
egoísta e sem interesse pelas demais pessoas, mas é muito
importante para o povo do meu país, então quero lhe fazer a
seguinte pergunta. Bem, nós também nos deparamos com a realidade
de que o Sr. Bush é perigoso onde quer que pise.
Devido a outra bomba que explodiu um ônibus municipal, morreu uma
jovem mãe que estava levando sua filha ao cinema como presente por
ela ter passado de ano. E a mãe morreu. O único pecado dessas
pessoas foi apenas viver numa cidade que foi visitada pelo Sr.
Bush. Acredito que uma mensagem sua às famílias das vítimas dessa
violência seria muito significativa. Você gostaria de enviar uma
mensagem de amor e solidariedade a essas pessoas antes que o filme
comece a ser exibido no meu país?
Moore: Acredito que quem quer que plante uma bomba é o
responsável pela morte dos outros. George Bush não é responsável
por essas mortes. Tendo dito isso, eu entendo... bem, o que eu
disse antes, eu simplesmente... Sinto-me muito mal quando vejo que
houve tanta boa vontade com relação aos EUA depois do 11 de
setembro, e eu acho que isso foi desperdiçado e que todos nós
estamos menos seguros no mundo como resultado das políticas da
administração Bush. Creio que é um mundo mais perigoso, não apenas
para aqueles que vivem na Turquia, mas de qualquer outro país que
se alia com os Estados Unidos ou com nós americanos. Acho que
estamos menos seguros como resultado das ações que esse homem
tomou. Tudo que posso dizer é que estamos fazendo o melhor que
podemos para devolver a Casa Branca para as mãos da maioria do
povo, e é minha esperança como americano que ainda sejamos
conhecidos como o povo que traz a paz ao mundo, cujas corporações
tratam o mundo... as pessoas, os trabalhadores deste mundo
honestamente e pagam-lhes um salário digno, e isso num plano em
que temos, não sei qual o número hoje – 2 bilhões, 3 bilhões de
pessoas que não têm acesso a água potável – apenas algo simples
desse jeito.
Nós temos a tecnologia, o dinheiro e os recursos para garantir que
todos os seres humanos neste planeta possam beber água potável. E
eu digo aos meus compatriotas: vocês não preferem ser conhecidos
como o povo que deu um copo de água potável a todas as pessoas
neste planeta? Os americanos fizeram isso nos EUA Não foi uma
coisa especial? Que nossos filhos agoram possam viver e que a
expectativa de vida das pessoas possa ultrapassar os 40 ou 50
anos? Não seria fantástico, como americanos, sermos conhecidos
como o povo que fez isso? Esses são os Estados Unidos que eu
gostaria de ver acontecerem em minha época, e continuarei a
trabalhar para isso, e lamento muitíssimo pelas pessoas na Turquia
que morreram nesta última semana. Tudo isso... tudo isso é
desnecessário.
Marcelo [Bernardes], da Revista Época, do Brasil. Minha
pergunta... Na verdade eu tenho duas perguntas. Minha primeira
pergunta é sobre a Buena Vista. Aparentemente, mesmo depois de
vencer a Palma de Ouro, você teve problemas com o Sr. Eisner, e
ele dificultou um pouco a revenda dos direitos para o Sr.
Weinstein. Eu gostaria de saber se isso é verdade, que ele possuía
parte dos direitos, e também minha segunda pergunta é: por que
você decidiu estar menos presente neste filme do que de costume
como entrevistador?
Moore: Sim, depois que a Buena Vista recusou-se a
distribuir o filme, a Buena Vista passou a dificultar as
negociações, pois não queria realmente abrir mão do dinheiro que o
filme ia faturar. Mas eles negociaram e chegaram a uma boa
solução. A Miramax e a Buena Vista, então, você sabe, tudo acabou
dando certo. Por que estou menos presente neste filme? Bem, para
começar, muitas vezes eu apareço nos meus filmes para ajudar com o
humor. Tendo George W. Bush como protagonista, ele não precisa de
ajuda para ser engraçado. Ele tem as falas mais engraçadas no
filme e eu achei que deveria apenas não atrapalhar.
Nicholas Wapshott, do London Times, da Inglaterra. Posso
lhe fazer duas perguntas? A primeira é sobre Tony Blair. As coisas
que você atacou no presidente Bush são razões causais ou
motivacionais pelas quais Bush comportou-se daquele modo e invadiu
o Iraque, mas nenhuma dessas coisas se aplica a Tony Blair. Ele é
um homem inteligente. Chegou sozinho à mesma conclusão. Então,
poderia comentar isso? E a outra coisa é se você está contente que
Saddam Hussein tenha sido tirado do poder, ou você preferiria que
ele tivesse permanecido?
Moore: Acho que eu não sou capaz de responder à primeira
pergunta. Trata-se de uma coisa em que venho pensando sem parar,
tentando entender o que Tony Blair, um homem inteligente, estaria
fazendo aliando-se a George W. Bush. Isso é uma coisa que cabe à
ciência descobrir. Sabe, talvez algum dia, quando alguém puder
fazer algum tipo de exame, como hipnotizá-lo. Eu não sei. Alguém
mais inteligente do que eu terá de descobrir isso. E se eu fiquei
triste por Saddam ser deposto? Foi essa a sua pergunta? Ou se
fiquei feliz que ele caiu? Ou... Bem, eu não sei... Eu acho que
todos... Não está todo mundo contente por Saddam Hussein não estar
no poder? Acho que todos sempre ficam empolgados quando um ditador
cai. Mas tomem cuidado com o que vocês desejam.
Sona Erketin, rádio pública Acik, da Turquia. Eu gostaria
de fazer duas perguntas. O que você acha da posição da Turquia no
caso do Iraque, pois a Turquia a princípio recusou envolver-se na
guerra e depois...
Moore: E depois nós fizemos uma oferta a vocês que não
puderam recusar... (risos)
Sona Erketin: Sim, mas, depois que aceitamos, aí então a
administração Bush já não quis mais a Turquia. E a outra coisa que
eu queria perguntar é, sem contar a mídia, como é que o povo
americano pode aceitar o que é apresentado pela administração Bush
como um fato, mesmo depois de ter passado pela Guerra Fria, pela
caça aos comunistas e pelo Vietnã?
Moore: Bem, essa é uma ótima pergunta. Tenho perguntado
isso há algum tempo. Avise-me quando descobrir a respostar. E,
quanto à primeira parte da sua pergunta, claramente, houve
considerações financeiras que foram oferecidas à Turquia para que
apoiasse esta guerra. É claro que eu espero que o povo turco, eu
acho que o povo turco entendeu que não lhe interessava o
envolvimento na guerra, mas se quer saber minha opinião sobre a
coisa toda com a Turquia, e isso vindo de um americano que não é
tão entendido em, você sabe, a Turquia... Não, vocês não precisam
se esforçar tanto. Sabe, vocês são uma das civilizações mais
antigas. Vocês deram ao mundo uma porção de coisas. Então, a coisa
toda não se resume a fazer parte da União Européia ou da OTAN, ou
fazer com que George Bush goste de vocês e tudo o mais. Sabe,
vocês têm a capacidade de fazer um bem ao mundo e à sua própria
gente. E eu me afastaria o máximo possível de George W. Bush a
esta altura.
Seiji Teramoto, do jornal diário japonês Tokyo Chunichi.
Tenho duas perguntas. A primeira pergunta é referente à cena dos
três reféns japoneses capturados no Iraque que vejo em seu filme.
Você quis expressar alguma opinião sua sobre o governo japonês ou
as forças japonesas, em razão de o primeiro-ministro japonês,
Koizumi, aparentemente ter concordado automaticamente com a
política de Bush?
Moore: E ele fez isso contra a vontade do povo japonês,
certo? Quero dizer, as pesquisas de opinião pública no Japão não o
apoiam nessa questão. Então, é minha esperança que o povo japonês
faça o que é necessário numa sociedade livre e democrática, assim
que chegarem as próximas eleições. E, se a cena com os três
japoneses no filme é apenas um pequeno lembrete do embaraço e da
humilhação completos que, não necessariamente aqueles três
trouxeram ao Japão, e eu compreendo como eles têm sido tratados
desde que voltaram, mas a vergonha que o primeiro-ministro japonês
trouxe para o Japão, pois devo dizer que, para todos nós que
crescemos com esse Japão pós-Segunda Guerra, seu povo tem sido o
verdadeiro advogado da paz já faz cerca de cinqüenta anos, porque
vocês conheceram os horrores da guerra talvez de um modo pior que
a maioria das pessoas, e até que ponto as coisas podem chegar em
termos de guerra atômica.
Assim, o povo japonês tem estado na linha de frente do desejo de
paz neste mundo, e vocês escolheram, por meio de sua constituição,
não dedicar nenhuma quantia significativa dos seus recursos para
um projeto ou projetos militares. Então, vê-los pela primeira vez
em todos esses anos se envolver desse modo foi uma coisa triste,
um dia triste, assim como para aqueles que se tornaram os faróis
da paz em redor do mundo, ver agora este país envolvido nesta
guerra foi uma coisa vergonhosa e escandalosa, e pela
correspondência que eu recebo de gente do Japão, eu sei que estão
ansiosos por fazer alguma coisa a respeito. Assim espero.
Cesar Cespedes, da revista Cosas, do Peru. Eu gostaria de
lhe perguntar, hoje, John Kerry e Bush estão empatados, segundo as
pesquisas. O que você vai fazer se Bush for reeleito? O que você
acha que acontecerá com o mundo se Bush for reeleito?
Moore: Você não tem o direito de falar uma coisa dessas
neste local. (risos) Eu realmente... sabe, como é que eu vou fazer
para dormir esta noite com um pensamento desses na cabeça? Por que
você faria uma coisa dessas conosco? Não, você está sugerindo uma
possibilidade, certo? É como me perguntar: “É possível que o Sol
saia de sua órbita amanhã e caia em direção da Terra...” Ah...
Não, não. Próxima pergunta. (risos)
Peter Hossli, da revista Facts, da Suíça:
conhecida pelos bancos e pela neutralidade. Minha pergunta é que
há muitos fatos por aí sobre você que eu gostaria de esclarecer, e
só vou lhe fazer uma pergunta. O que foi que você disse e o que
foi que você não disse sobre baixar seu filme pela Internet?
Moore: Bem, em primeiro lugar, bancos e neutralidade...
claramente, você acabou de cair numa contradição. Tenho ou não
tenho razão? Tudo bem. O que eu disse sobre baixar o filme? Eu não
concordo com as leis de direitos autorais deste país. Eu acredito
que as pessoas deveriam poder compartilhar obras de arte. Eu não
acredito que seja certo um terceiro lucrar com o trabalho, a arte
ou a criatividade de outra pessoa. Então, eu sou contra isso. Mas
se alguém aluga ou compra o filme e quer compartilhá-lo com um
amigo, um vizinho ou seja quem for, eu dou todo apoio.
Divulguem-no o máximo possível. Se comprarem meu livro, querem
fazê-lo circular por dez pessoas? Cara, eu adoro ouvir isso. Não
estou dizendo a mim mesmo: “Não, esperem aí, quero que essas dez
pessoas comprem o livro”.
Eu escrevi esse livro porque quero que a informação seja
divulgada, e se você não pode pagar por ele ou se você tirou uma
cópia do livro para que alguém que não pode pagar por ele possa
lê-lo, cara, eu dou todo apoio a isso também. Então, eu discordo
de toda essa coisa com o Napster e tudo o mais, porque eu sei que,
quando eu era adolescente, na época dos discos, dos discos de
vinil, e a fita cassete foi inventada, a gente começava a gravar
fitas e a compartilhá-las. Era assim que conhecíamos aquelas
bandas. E depois que a gente conhecia e era exposto a uma banda da
qual gostava, a gente saía e comprava os discos dela. Eu sempre
achei uma estupidez a indústria musical ser contra isso, quando,
na verdade, eu acho que acaba... as pessoas acabam comprando essas
coisas. Mas não dá para ter as duas coisas. Não é possível, depois
de fazer com que todo mundo compre tudo em vinil e depois em fita,
pôr em formato digital e depois dizer: “Ah, não, vocês não podem
copiar isso”.
Bem, isso é como, sabe, pegar seu sofá e sua televisão e
colocá-los no meio-fio e depois dizer... e depois ficar surpreso
que alguém os tenha pegado. Depois que passaram para a mídia
digital, trouxeram a música para fora, para que todos possam
pegá-la. Eu preferiria muito mais voltar para os dias do vinil. Eu
acho que o som é melhor. Então, eu não sei. Isso responde à sua
pergunta ou só estou...? (pergunta fora do microfone) Não estão
baixando o meu filme. Você quer dizer que eles estão baixando
filmes piratas de gente que levou uma câmera e o filmou. Bem, esse
não é o meu filme. Estão assistindo a uma porcaria filmada de uma
câmera de rua. Mas e quando o DVD sair e as pessoas o copiarem
umas para as outras? Fico contente que o façam. Mas por favor...
Sinto-me mal com as pessoas sendo enganadas ou achando que estão
vendo o meu filme quando o estão vendo de alguma câmera caseira
que entrou escondida num cinema. Pois eu fiz este filme como um
filme, e eu quero ir vê-lo num cinema com 300 outras pessoas. Eu
acho que é uma grande experiência ver este filme desse jeito. Mas
isso é somente a minha opinião.
Simon Houpt, do Toronto Globe and Mail, do Canadá:
onde o seu filme está indo extraordinariamente bem, com cerca de
17% do total das bilheterias da América do Norte até o momento.
Moore: Uau.
Simon Houpt: Mesmo correndo o risco de irritá-lo, vou citar
um jornalista americano que é na verdade um crítico americano de
cinema, que no geral gostou muito do seu filme. David Envy, da New
Yorker. Mas só estou interessado em ouvir sua resposta para algo
que ele disse, que é o seguinte: “Moore nunca fala sobre o
fundamentalismo islâmico e seus campos de treinamento, o ódio
obsessivo que eles têm pelo Ocidente, ou terroristas suicidas e a
dificuldade de nos precavermos contra eles. Ele nunca pergunta
como o governo americano deveria se portar numa guerra contra
totalitarismos religiosos.” Tem alguma resposta?
Moore: Noite após noite é martelado em nosso ouvidos por
nossas redes de televisão e canais de notícias pagos sobre os
fundamentalistas islâmicos. Já vimos tudo. Já ouvimos tudo. Meu
filme diz: “Aqui estão algumas das coisas que vocês não têm visto.
Aqui estão algumas das coisas que vocês não têm ouvido.” E não é a
minha função apenas ficar repetindo o que já foi martelado na
cabeça das pessoas. Minha função é dizer: “Talvez haja mais alguma
coisa acontecendo. Talvez haja mais alguma informação que vocês
deveriam ter antes de tomarem uma posição. Talvez vocês devessem
ver um ponto de vista contrário de vez em quando neste país.” E,
então, eles detêm... A mídia corporativa neste país? Eles detêm o
controle dela o dia todo, todos os 365 dias do ano. Meu filme é
nosso apelo humilde: “Podemos ter duas horas, podemos ter apenas
duas horas para o nosso lado ou para outro ponto de vista, ou para
algumas fotos preencherem as lacunas que não estão sendo
preenchidas pela mídia?” A segunda parte da sua pergunta é: “Como
lutar numa guerra contra fundamentalistas religiosos?” Bem, é isso
que estamos fazendo neste país, e eu espero que tenhamos sucesso
no dia 2 de novembro.
Maho Kawachi, do jornal Nikkei, do Japão:
Você soube se o Sr. Bush ou alguma outra figura chave no seu filme
assistiu a ele, e, nesse caso, qual foi a reação? Você ficou
sabendo de algo assim?
Moore: Não creio que tenham visto o filme. Eu adoraria que
o vissem. Eu o exibiria a eles pessoalmente, se me deixassem
entrar na Casa Branca. Eu mesmo traria o filme e faria a pipoca, e
eu adoraria que eles assistissem ao filme. Não, eles têm criticado
o filme sem tê-lo visto. Todos alegaram não tê-lo visto, mas
declararam-no ultrajantemente falso, e acho que Dan Bartlett disse
na CNN semana passada... ele disse algo do tipo “a gente não
precisa ver... às vezes a gente não precisa ver as coisas para
saber que elas são ruins”, ou algo assim. E eu pensei: “Puxa, isso
é incrivelmente consistente. Eles não precisaram ver as armas de
destruição em massa para declarar guerra, então eles são
consistentes nessa política deles.”
Hiroko Kono, do jornal japonês Yomiuri Shimbun:
Você mencionou que a maioria... a maioria do seu país seria de
esquerda, mas sempre...
Moore: A maioria é o quê?
Hiroko Kono: A maioria é de esquerda, isso. Mas as
pesquisas da mídia geralmente dizem que cerca de 40% ou 44% dos
americanos ainda são contados como favoráveis a Bush, como a
Brittany Spears. O que você acha? Quantos americanos estão
realmente do lado de Bush?
Moore: Acho que provavelmente é isso mesmo. Provavelmente
40% daqueles que votam – lembre-se de que somente 50% do país vota
– então 40% provavelmente o apóia mesmo. Então, espero que 60% não
o apóie. Últimas perguntas? Sim. Certo. Vamos pegar as últimas
três aqui e vamos...
Hiroko Kono: Como vai?
Moore: Bem. Aí atrás? Lá no fundo? Certo, vou lhes dizer
uma coisa. Se me fizerem uma pergunta rápida, eu lhes darei uma
resposta bem rápida e breve. Faremos um “pingue-pongue” bem
dinâmico. Vamos, depressa. Sim...
Kyungmi Kim, do jornal Ohmy , da Coréia do Sul:
E, como sabe, meu governo decidiu enviar militares para o Iraque,
então, mesmo que um único coreano seja morto, muita gente na
Coréia está furiosa com seu governo, e por isso muitos coreanos
também querem ver o seu filme. Então, se tiver alguma mensagem,
principalmente para o povo coreano, poderia dizê-la?
Moore: Sim, eu espero que o povo coreano venha assistir ao
meu filme e eu espero que o povo coreano, novamente, como eu já
disse sobre outros países, quando forem votar da próxima vez,
deixem seu líder saber o que vocês não aprovaram...
Claudia Sandoval, do jornal colombiano El Tiempo:
O enorme sucesso do filme aqui nos EUA é prova do seu poder de
influenciar a opinião pública. Como você se sente com esse poder?
Moore: (risos) Eu não sinto que tenho nenhum poder. Fico
contente que muitas pessoas vão vê-lo e espero que acrescente algo
a elas, espero que debatam o filme e espero que façam algo a
respeito. Além disso, sabe como é, é apenas um filme. Entende o
que estou dizendo? Não quero considerá-lo mais do que realmente é.
Entende o que estou dizendo? Eu gostaria de saber dizer isso em
espanhol.
Bob Rosen, sou americano, cobrindo para a revista Paniko, do
Chile: É um website, e você, no seu
website, assinala que os Estados Unidos gostam de brincar de Dr.
Frankenstein e criar ditadores monstruosos, e você faz referência
específica a Pinochet e ao Chile, e Pinochet tomou o poder em 11
de setembro de 1973. Como você acha que Pinochet se compara, como
político, a Bush, e você acha que Bush algum dia será levado aos
tribunais?
Moore: Não consigo imaginar uma coisa pior para um
presidente fazer do que levar um país à guerra baseado numa
mentira. Isso é... para mim, isso parece chegar perto de ser
criminoso. E eu gostaria que algum dia houvesse justiça, pelas
leis. Se podemos depor um presidente por causa de uma mancha num
vestido azul, nós certamente deveríamos estar fazendo alguma coisa
a respeito de alguém que participa de uma falsificação que envia
nossos jovens para a guerra. Pinochet... para começar, ele ajudou
a dar um golpe militar com o auxílio d |